A VACINA DA COVID-19 DOS 0 AOS 100

30 Dezembro 2020

A VACINA DA COVID-19 DOS 0 AOS 100

É uma coisa curiosa isto do sistema imunitário. Composto por uma intrincada panóplia de mecanismos de defesa desenvolvidos e afinados ao fim de milhões de anos de evolução, defende-nos hoje de inúmeras ameaças como é o caso dos chamados agentes patogénicos isto é, os que nos podem causar doença.

A primeira linha de defesa é composta por um conjunto de barreiras físicas e químicas cuja função é impedir a entrada desses agentes ou pelo menos impedir que entrem em número e viabilidade suficiente para causar doença, como é exemplo de barreira a pele, as mucosas, os ácidos gástricos, etc.

Se um agente patogénico conseguir penetrar com sucesso no organismo tem de enfrentar o sistema imunitário inato. Como o nome indica é um sistema adquirido à nascença e não é específico, baseia-se no princípio de identificar aquilo que é estranho ao funcionamento normal do organismo.

No entanto, nós (e os demais animais vertebrados) desenvolvemos uma segunda resposta imunitária, o sistema imunitário adquirido ou adaptativo. Traduz a capacidade do organismo em aprender a reconhecer uma ameaça e em desenvolver uma resposta específica. É um sistema inteligente, complexo e ainda não totalmente compreendido, mas baseia-se numa ideia simples: identificar algo que caracterize essa ameaça e desenvolver uma forma de a detectar. O que caracteriza um agente patogénico são as proteínas que exibem à superfície (antígenos) e para as detectar o sistema imunitário produz os anticorpos, que são marcadores específicos que se vão ligar a essas proteínas podendo, por um lado inativar o patógeno, por outro desencadear a resposta imunitária, que no final vai destruir a ameaça.

Os agentes patogénicos podem ser de diferentes tipos como fungos, parasitas, bactérias ou vírus.

antigeno

Explicação da resposta imunitária específica pela OMS

Os vírus são… vírus. Uma descrição formal poderá ser agentes submicroscópicos infecciosos compostos por material genético (DNA ou RNA) com um revestimento proteico e, em alguns casos, encapsulados por uma bicamada lipoproteica (obtida da célula hospedeira). Parece complexo, mas não é, na realidade são estruturas tão simples que há quem não os considere seres vivos, dado que nem sequer são capazes de se reproduzir. Em comum os diferentes vírus conhecidos necessitam de uma célula hospedeira para se replicarem, precisam de usar literalmente a maquinaria de replicação de uma célula para fazerem cópias de si próprios.

Por dependerem de um hospedeiro, para continuarem a existir os vírus encontraram diferentes estratégias que lhes garantem uma taxa de transmissibilidade adequada ao tempo que conseguem permanecer no indivíduo. Alguns vírus adaptaram-se para enganar o sistema imunitário como o vírus do herpes simples que permanece dormente no organismo toda vida do hospedeiro desencadeando surtos ocasionais que permitem o contágio. Mas os vírus respiratórios (responsáveis por doenças como gripes e constipações) adaptaram-se para se transmitirem rapidamente entre indivíduos. A estratégia passa por infectar, usar os recursos do hospedeiro para se multiplicar, e transmitir-se antes do sistema imunitário do hospedeiro ter tempo para desencadear uma resposta imunitária específica.

Mas o equilíbrio entre a transmissão, a virulência e a letalidade é delicada, uma vez que os vírus necessitam do hospedeiro e de indivíduos suscetíveis de infecção para continuar a existir. Atingindo esse equilíbrio tornam-se endémicos.

A Vacina.

Edward Jenner é possivelmente um nome bem conhecido por aparecer recorrentemente em jogos de cultura geral, onde figura como um pioneiro na vacinação. Mas na realidade já havia no final do século XVIII um certo entendimento do conceito de imunidade adquirida com alguns séculos, existindo mesmo sociedades onde se fazia a variolização (inoculação com material retirado às úlceras de indivíduos em recuperação de Varíola) com o objetivo de desenvolver uma forma menos agressiva de varíola e, deste modo, proteger o indivíduo contra uma nova infecção. Não era contudo um método muito seguro, pois as técnicas existentes à época não só não garantiam a inoculação correta como podiam levar ao desenvolvimento da forma agressiva de uma doença.

Contudo os seres humanos infectados com uma forma menos agressiva da Varíola, a Varíola Bovina, adquiriam imunidade contra a versão humana da doença. Edward alcança assim a sua fama ao inocular pacientes com esta variedade menos agressiva, e mais importante, ao provar que as pessoas vacinadas desta forma ficavam imunes à Varíola.

Hoje, mais de dois séculos passados, a Varíola deixou de ser endémica para estar erradicada e as vacinas tornaram-se num dos maiores progressos da humanidade no combate às doenças infeciosas.

O SARS-CoV-2

A pandemia que tornou 2020 num ano marcado por uma crise de saúde pública a nível mundial assiste agora à chegada das primeiras vacinas.

Há data, a Organização Mundial de Saúde (OMS) identifica 233 vacinas em desenvolvimento, 61 das quais em testes clínicos. [1]

A OMS resume os diferentes tipos de vacinas em desenvolvimento para o SARS-CoV-2 em 4 categorias:

1.

Formas inativadas ou enfraquecidas do vírus:
Trata-se provavelmente da abordagem mais convencional e conhecida da maioria da população. Através da inoculação com estas formas do vírus enfraquecido ou inativado procura-se promover a resposta imunitária, sem o desenvolvimento da doença. É exemplo a vacina antissarampo, parotidite e rubéola (VASPR) [2] (prevista no plano nacional de vacinação [3]) As vacinas em desenvolvimento pela Sinovac [4] e pela Sinopharm [4] baseiam-se nesta técnica.

2.

Vacinas baseadas em proteínas:
Nesta técnica utilizam-se fragmentos inofensivos do vírus, nomeadamente proteínas que mimetizam o vírus. É considerada uma abordagem segura, uma vez que o que é administrado são apenas fragmentos do vírus mas para os quais o organismo desenvolve a resposta imunitária. É o caso da vacina contra infecções pelo vírus do Papiloma humano. Para estimular uma resposta imunitária estas proteínas são ligadas a um agente químico chamado adjuvante. Estes adjuvantes por vezes têm sido associados efeitos secundários após imunização [5] [6] estando na base de alguns argumentos antivacinação. No entanto são utilizados há várias décadas sendo considerados seguros pelas entidades de saúde [7] sendo consensual entre a comunidade científica que os benefícios são muito superiores aos riscos que possam existir.
A vacina em desenvolvimento pela Novavax [4] utiliza esta técnica. É baseada na proteína spike completa ligada a uma adjuvante para ativar o sistema imunitário. A dificuldade deste tipo de vacinas está em aperfeiçoar o sistema de produção da proteína [8].

3.

Vector Viral:
Nesta abordagem é utilizado um vírus [inofensivo] modificado geneticamente para que não cause doença mas que induza a célula hospedeira a produzir as proteínas características do coronavírus e, deste modo, gerar uma resposta imunitária forte. A vacina contra o ébola, rVSV-ZEBOV, é um exemplo que usa esta técnica [15]. O vírus modificado pode ser replicante, ou seja capaz de se replicar normalmente nos organismos, ou não replicante, apenas induz a produção da proteína pela célula hospedeira. No caso das vacinas atualmente em estado mais avançado, como caso da vacina em desenvolvimento pela AstraZeneca/Oxford [4], trata-se de uma versão não replicante que vai induzir as células a produzirem a proteína spike. Este tipo de vacina tem o desafio acrescido, pois pode ter uma menor eficácia caso a pessoa a imunizar já tenha sido exposta ao vírus vector [15].

4.

Vacinas de RNA e DNA
São consideradas tecnologia de ponta e é a primeira vez que uma vacina com esta tecnologia é aprovada. Nesta técnica utiliza-se diretamente o RNA ou DNA geneticamente modificado. O princípio de funcionamento é semelhante ao anterior, mas sem utilizar um vírus como intermediário. O DNA ou RNA é associado a uma molécula que o vai transportar para o interior das células onde vão iniciar a produção da proteína que caracteriza o coronavírus. No caso das vacinas da Pfizer-BioNTech [4] e da Moderna [4] é utilizado mRNA (RNA mensageiro). As moléculas de mRNA são parte integrante do dia a dia de uma célula, podem ser entendidas como uma fita de instruções, ou um molde se facilitar a analogia, que é processada (transcrita) dentro da célula gerando-se uma proteína com uma configuração específica. No caso da vacina, as instruções são para a célula produzir a proteína spike.
Por sua vez, as células vão expor essas proteínas spike à sua superfícies ativando o sistema imunitário. O desafio desta vacina foi o desenvolvimento do mecanismo que transporta o mRNA para o interior das células, mas é uma vacina relativamente mais rápida e simples fácil de produzir [16]. Uma desvantagem desta vacina é a necessidade de ser conservada a temperaturas muito baixas (-70ºC)[17] que coloca desafios logísticos, principalmente em países mais pobres.

 

vacinas

Representação esquemática dos diferentes tipos de vacina em desenvolvimento para a CoViD-19. A imagem do Coronavírus é disponibilizada pelo CDC, a representação do adenovírus é adaptada de da imagem de Thomas Splettstoesser

Todas estas vacinas têm assim em comum o princípio de induzir uma resposta imunitária do organismo quando exposto a proteínas características do coronavírus, ou seja o objetivo é ensinar o organismo a reconhecer a infecção pelo SARS-CoV-2 para que seja capaz de se proteger da doença CoViD-19. Este é um aspecto a ter em atenção, porque uma vez iniciada a vacinação deve surgir a questão:

Uma pessoa vacinada, está imune à infecção pelo vírus? e já não corre o risco de contaminar outra pessoa?

A resposta a estas questões é “não” e “boa pergunta” [9] [10] [11] [12] [13]. Como já se sabe muitas pessoas que são infectadas pelo vírus não desenvolvem sintomas ou desenvolvem formas atenuadas da doença, mas uma pequena, e ainda assim significativa, percentagem da população desenvolve doença severa e eventualmente letal. A vacina pretende proteger-nos das formas mais agressivas da doença mas não nos torna imunes à infecção pelo vírus. Quanto à transmissão… ainda não se sabe [9] [10] [11] [12] [13]. Sabemos que a CoViD-19 se transmite facilmente entre assintomáticos, pelo que não é de excluir que uma pessoa vacinada a possa transmitir. Será necessária mais investigação e tempo para se ter mais respostas.

O início da vacinação será sem dúvida um marco importante no que será a história da pandemia por SARS-CoV-2 nos anais da história. Nunca em tão pouco tempo uma vacina foi desenvolvida, produzida, distribuída e administrada na população, mas isto não acontece por acaso. A tecnologia que o permitiu fazer já existia [14]. É fruto do investimento em I&D por Empresas e Entidades Científicas e de um esforço concertado entre as diversas organizações. O resto, um dia, será história.

 

Pedro Reis
Consultor de I&D