A IRONIA DE INOVAR COM O PASSADO!

17 Dezembro 2019

A IRONIA DE INOVAR COM O PASSADO!

Carvão Vegetal!

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No início do mês de Dezembro, o governo central delineou as novas diretrizes a serem seguidas para o combate aos fogos rurais, no Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais para 2020-2030 – PNGIFR 2030, que conta com um orçamento médio anual de 554 milhões de euros, totalizando assim 6.095 milhões de euros para este novo plano.

Uma das novidades deste plano é a grande aposta tanto na prevenção como na valorização dos espaços rurais. Isto por duas principais razões, primeiro pelo facto de 60% de todo o orçamento ser destinado à prevenção de incêndios, e segundo pela dotação orçamental destinada aos proprietários e privados que ascende em 20% dos incentivos financeiro.

Os particulares e proprietários poderão beneficiar de um objetivo estratégia estabelecido pelo governo central que consiste em “Aumentar a remuneração dos proprietários com reforma do modelo de gestão florestal”, que se encontra na Orientação Estratégica “Valorizar os Espaços Rurais” que conta com uma dotação de 20% do orçamento[1].

Existem diversas formas de aumentar os rendimentos da exploração florestal/rural, contudo a valorização dos sobrantes, resultante da limpeza obrigatória dos terrenos florestais mas também da exploração dos terrenos agrícolas, são excelente fonte de proveitos que muitas vezes são subaproveitados.

Em Portugal a atividade de manutenção das florestas e campos agrícolas é responsável pela produção de aproximadamente 6,5 milhões de toneladas anuais de Biomassa (madeiras, folhas, lenha de podas, restos agrícolas, entre outras)[2]. Contudo uma das características que define o setor económico primário é uma elevada fragmentação do território, tanto florestal como agrícola sobretudo a Norte e Centro do país[3], o que dificulta a valorização desta Biomassa/sobrantes.

Atualmente a Biomassa, que é valorizada, destina-se na sua maioria a produção de energia elétrica ou a produção de pellets. A restante Biomassa é, infelizmente, utilizada em queimas que aumentam a probabilidade da existência de fogos florestais, que tem devastado o território Português, além de não acrescentar nenhum valor económico para o proprietário.

Uma das soluções que tem vindo a ser estudada, na União Europeia e também Portugal, para combater a falta de rendimento e o problema dos fogos florestais é a transformação da Biomassa, não usada para produção elétrica, em Carvão vegetal usando a pirólise.

Esta técnica de transformação permite obter diversas vantagens quando comparada a outras técnicas de valorização, tais como, armazenamento estável de Gases com Efeito de Estufa que seriam emitidos para a atmosfera, maior poder calorifico e facilidade de transporte. O Carvão vegetal além destes benefícios é bastante versátil e útil em diversas indústrias.

Em Portugal a sua aplicação como fertilizante para o solo é a mais estudada tendo comprovado enumeras vantagens, tais como[4]:

→ Aumento da retenção de nutrientes nos solos até 50%;

→ Aumenta a retenção de líquidos nos solos até 18%;

→ Capacitação dos solos altamente degradados ou erodidos;

→ O uso de 1 tonelada de carvão vegetal equivale à retenção de 2,7 toneladas de CO2, o que ratifica a potencialidade e os benefícios da utilização do carvão vegetal na atividade agrícola nacional.

O Carvão vegetal ou “Biochar” além de ótimo para ser aplicado no solo como fertilizante é ideal em diversas outras indústrias transformadoras e de elevado valor acrescentado[5], quando preparado para tal:

→ Uso como suplemento alimentar para animais, permite a redução de emissões de metano, de doenças digestivas, alergias permitindo assim melhorar a saúde animal;

→ Uso como material de construção, possibilita ser usada como regulador de humidade, protetor eletromagnético, descontaminação tanto dos solos como do ar e finalmente como material de isolamento;

→ Uso para tratamento de águas, ao ser utilizado como filtro (micro e macro) permite obter água potável, como um aditivo nas águas residuais para absorção de resíduos tóxicos e também permite ser usado como uma barreira de proteção contra pesticidas;

→ Uso na medicina, sobretudo para desintoxicação do organismo, como transportador de ingredientes farmacêuticos e também como ingrediente curativo usado em cataplasmas;

→ Ser usado como um escudo eletromagnético, com o devido tratamento o carvão vegetal é eficaz na proteção contra as radiações de todos os equipamentos eletrónicos que nos rodeiam;

→ Diversas outras indústrias, Eletrónica (baterias e semicondutores), Material Industrial (fibras de carbono e plástico), Cosmética (banhos terapêuticos e sabonetes) e Energético (pellets e lenhite) entre muitas outras indústrias.

Esta versatilidade observada do Carvão Vegetal/Biochar está a ter repercussões nos mercados internacionais onde se espera um crescimento anual de 14% no mercado do Biochar entre os anos de 2018 e 2025[6].

É irónico pensar que produzir carvão, uma tecnologia milenar, pode ser HOJE uma forma de inovar na gestão da biomassa.

[1] Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais para 2020-2030
[2] Plano Nacional para a Promoção das Biorrefinarias – Horizonte 2030
[3] NaturLink – Os actores da Floresta Portuguesa
[4] Pro-Natura, Biochar the third green revolution, 2011

[5] Schmidt HP, Wilson K: The 55 uses of biochar, the Biochar Journal 2014, Arbaz, Switzerland. ISSN 2297-1114, www.biochar-journal.org/en/ct/2
[6] Zion Market Research – Global Biochar Market Size

 

Luís Martins
Estratégia & Desenvolvimento