MOBILIDADE PARTILHADA E AUTÓNOMA: COMODIDADE DO FUTURO

21 Janeiro 2019

MOBILIDADE PARTILHADA E AUTÓNOMA: COMODIDADE DO FUTURO

A maneira como todo o ecossistema de mobilidade funciona está prestes a pôr-nos à prova, a bem da sustentabilidade do nosso planeta – estamos perante uma mudança de paradigma!

 

Atualmente o mundo sofre como consequência da nossa ganância de ter um produto só para nós. O exemplo mais prático e preocupante que temos é o veículo pessoal. É muito comum para irmos todos os dias para o trabalho, com um carro de 5 lugares, depósito cheio, …mas sozinhos! Se olharmos para o futuro, só podemos rir de tal egocentrismo.

 

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Embora tenham aparecido algumas soluções de car-sharing, como por exemplo as soluções eMov e DriveNow, ainda não se considera que tenha existido uma mudança de paradigma. Se olharmos aos dados de 2017, disponíveis no INE – Instituto Nacional de Estatística, sobre a mobilidade nos centros urbanos de Lisboa e Porto, verifica-se que 60% das pessoas inquiridas da região de Lisboa e de 69% no Porto ainda utilizam transporte individual motorizado (excluindo o carsharing, transportes públicos coletivos ou outros transportes não motorizados).

É caso para questionar “Porque continua a existir resiliência à mobilidade partilhada“?

 

Se do ponto de vista tecnológico e de utilização, nos garantissem que poderíamos ir para qualquer lado, a qualquer hora, a um custo inferior e com a mesma comodidade que um veículo pessoal, certamente não hesitaríamos em aderir à “nova moda”. É de facto esta comodidade que ainda não estamos prontos a abdicar em prol de uma mobilidade partilhada.

 

A este conceito de partilha, podemos acrescentar o conceito de confiarmos num veículo autónomo, uma vez que é uma abordagem que traz também muitas vantagens para o nosso planeta. São já conhecidas as vantagens de um veículo autónomo, e o site ITSdigest refere algumas: Redução de acidentes, redução de congestão de tráfego, redução de emissões de CO2, aumento da capacidade por faixa de rodagem, menor consumo de combustível, parqueamento mais eficiente, entre outras. Será que conseguimos confiar totalmente num carro autónomo para nos levar a qualquer lugar, à distância de um pedido no nosso smartphone, sem nos termos que preocupar com a condução e com a procura de lugar de estacionamento?

Na verdade, existem ainda alguns fatores que poderão condicionar a implementação destes sistemas:

 

1 – Evolução tecnológica em termos de aceitação em torno do conceito de “partilha de veículos”:

 

Segundo o estudo da IPSOS “The Future of Mobiblity” de Outubro de 2018, calcula-se que, em média, as pessoas utilizam o carro em cerca de 63 minutos por dia, sendo que cerca de 67 dias por ano o carro não é sequer utilizado. Isto perfaz um rácio de utilização de cerca de 4%, ou seja, 96 % do tempo o carro está parado sem ser utilizado. Apesar disto, mais de metade dos utilizadores de veículos próprios considera que a importância de possuir um veículo próprio irá mudar nos próximos anos, e que as pessoas irão optar pela mobilidade partilhada devido ao seu custo vir a ser inferior. De notar ainda que, nos Estados Unidos da América, cerca de 49% das pessoas ainda acredita que possuir um carro próprio no futuro será tão importante como hoje em dia.

 

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Figura 1 – Resultados do inquérito realizado pela IPSOS (Fonte: IPSOS Views: The Future of Mobilty – Shared Mobility)

2 – Evolução tecnológica em termos de aceitação e User Experience do conceito de “veículo autónomo”:

 

Um estudo recente publicado na revista Journal of Advanced Transportation de 2018, no qual se realizou um inquérito a nível mundial (em 116 países nos quais se obteve 7755 respostas) apresenta como conclusões que a maioria das pessoas inquiridas se sentiria confortável na utilização de um veículo autónomo. Numa escala de 1 a 6, sendo 1 = discordo completamente e 6 = concordo plenamente, este conjunto de pessoas pontuou o seu nível de aceitação de utilização de veículos autónomos em 4,90 (média). Para além disso, conseguiu-se identificar algumas correlações demográficas sobre o tipo de público-alvo que estaria mais suscetível para aderir a este novo conceito, como é o caso de pessoas que necessitam de se deslocar/permanecer nas cidades, sendo que a sua maior motivação está relacionada com a dificuldade em encontrar um lugar para estacionar.

Deste dois pontos de vista podemos concluir que em termos médios, a população mundial tem já alguma consciência sobre o que o futuro poderá ser em termos de mobilidade, tanto do ponto de vista da partilha de veículos como do ponto de vista da utilização de veículos autónomos. Mais tarde ou mais cedo estas tecnologias ou modelos de negócios irão vingar, dependendo, claro, da adoção de alguns mercados mundiais (como vimos anteriormente, que em relação aos EUA a mentalidade de ter um veiculo próprio é ainda muito acentuada). Cabe apenas às empresas e interfaces tecnológicas desenvolver e maturar a tecnologia até ao ponto em que esta seja efetivamente incorporada no dia-a-dia da população mundial. De facto, a consultora Grand View Research (no seu relatório de análise de mercado da mobilidade partilhada Shared Mobility Market Size, Share & Trends Analysis Report) estima que o mercado da mobilidade partilhada irá sofrer um crescimento anual (CAGR) de cerca de 25% entre 2018 e 2025, valendo cerca de 620 mil milhões de dólares no final desse período. Comparado com o valor atual, de cerca de 105 mil milhões de dólares em 2017, podemos inferir que estamos na base de uma rampa de lançamento para muitas alterações na maneira como nos deslocamos e de como os serviços de mobilidade nos serão apresentados. Os próximos anos serão, por isto, propícios a inovação e investimento na área da mobilidade partilhada, onde os veículos autónomos terão um papel fundamental, existindo um potencialidade de negócio tremendo.

Estas inovações serão pautadas por uma crescente aproximação das necessidades do utilizador. Isto é, o que realmente os utentes necessitam é de um transporte económico, fiável, seguro, de porta-a-porta e disponível 24/7, pois é disto mesmo que irão abdicar no futuro se o carro particular deixar de ser uma opção. Deste ponto de vista será necessário criar mecanismos de gestão de transportes suficientemente flexíveis para permitir atender aos pedidos. A investigação realizada sobre esta temática visa perceber exatamente como será feita esta aproximação, pois existem diversas vias para conseguir alcançar um serviço com estas características, como retrata o artigo do CARTRE – Coordenação da implementação do transporte rodoviário autónomo para a Europa. Dentro deste âmbito podemos ter várias soluções de transporte conforme os diferentes níveis de veículos autónomos propostos pela Soceity of Automation Engineers (SAE). No nível mais autónomo (nível 5) teremos os serviços on-demand porta-a-porta com “robots-táxis” e soluções de transporte intermodais inteligentes para transportes de longo curso. Entretanto, vamos ver surgir algumas soluções com um nível SAE mais baixo, como a possibilidade de partilha de shuttles, parqueamento autónomo, platooning (agregação de vários veículos em linha, tipo comboio, para reduzir o coeficiente de resistência aerodinâmica), transportes autónomos para realizar o “último quilómetro”, etc.

Fica só por realçar o facto de que estes sistemas terão que ser acompanhados por desenvolvimento de soluções por parte das “Smart Cities” a fim de conseguirem albergar estas mudanças de paradigma e tornar possível que, num futuro próximo, seja possível que a mobilidade facilite tanto a nossa sociedade como o impacto que esta tem no nosso planeta.

 

João Rodrigues
Consultor de I&D