O “VALE DA MORTE” DOS PROJETOS DE I&D

29 Março 2018

O “VALE DA MORTE” DOS PROJETOS DE I&D

Venho falar de inovação, de frustrações profissionais e do “Vale da Morte”, esse lugar onde as ideias milionárias vêm para morrer.

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Inovação. Uma das principais Buzzwords da atualidade. Hoje, tudo é “inovador” e todos afirmam ser “inovadores”, mas como? Se a semântica da palavra ‘inovar’ nos leva ao ato de criar algo novo, uma ideia, método ou coisa que venha romper com os padrões anteriores, nos dias de hoje, quem realmente entende de inovação utiliza a palavra também num contexto de exploração económica, sendo que a verdadeira inovação é aquela que chega ao mercado.

Segundo um estudo da COTEC (2017), as PME mais inovadoras têm quase quatro vezes mais volume de negócios, EBITDA cinco vezes superiores e quase oito vezes mais lucro. Com isto é possível afirmar que a inovação compensa. Mas é difícil para uma PME inovar quando não possui recursos e/ou competências para Investigação e Desenvolvimento.

Segundo a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) existem em Portugal 307 ninhos destes que albergam cerca de 22 mil das melhores mentes nacionais e internacionais. Nos últimos anos, tenho tido a oportunidade de estar envolvido com algumas destas entidades. Estes ninhos com tecnologia de ponta e investigadores prodígios fervilham de ideias que literalmente podem mudar o mundo. São muitos milhões de euros em fundos europeus que financiam este desenvolvimento de projetos de várias naturezas e que visam a sua exploração económica junto das empresas.

A este processo, chamamos de Transferência de Tecnologia mas as práticas existentes não são tão lineares quanto a teoria. Muitos projetos fantásticos foram parar à gaveta depois de terminar o financiamento, isto porque, grande parte dos centros de investigação funciona por ciclos, ou seja, desenvolvem projetos com afinco durante a fase de financiamento, quando esta termina, passam para o próximo projeto aprovado para assegurar a subsistência.

Como consequência temos investigadores e cientistas embrenhados nos laboratórios com ideias revolucionárias, empenhando-se em atingir a excelência nas suas áreas de interesse, deixando do outro lado da porta as necessidades do mercado e da sociedade. É aqui que entram as minhas frustrações.

Esta realidade significa que além de milhões de euros de financiamento de fundos europeus irem parar às gavetas, temos um tecido empresarial composto por PME sem capacidades de I&D que se debatem para manter a sua competitividade enquanto existem ideias, tecnologias e produtos milionários literalmente à espera de ir para o mercado.

Esta lacuna entre o I&D e o tecido empresarial é partilhada a nível europeu. Recentemente participei num workshop de Indústria 4.0 com Dr. Erastos Filos (DG Research & Innovation ) da Comissão Europeia que apresentou a sua leitura sobre o estado atual da transferência de conhecimento e tecnologia e que partilhou que menos de 5% dos resultados de I&D chegam ao mercado de forma viável. Se pelo lado científico, a União Europeia está na frente da Investigação & Desenvolvimento de qualidade, junto com potências como os E.U.A., se analisada a Transferência de Tecnologia para o mercado, ficamos muito aquém. O resultado é um atraso do tecido empresarial no qual as empresas, para manter a sua competitividade, se vêem obrigadas a importar tecnologias sem saber que muitas vezes essas tecnologias já tinham sido desenvolvidas localmente, mas ficaram na gaveta depois da fase de financiamento público.

Grande parte dos projetos tecnológicos e científicos não alcança o mercado por não conseguirem sobreviver, fenómeno que na gíria científica se denomina de “Vale da Morte”, ou seja o espaço entre a prova de conceito e a sua exploração no mercado. É neste vale que muitas ideias morrem sem nunca amortizar o investimento realizado.

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Em suma, o processo de transferência de tecnologia não é linear mas sim um ciclo de cocriação de valor que envolve de igual para igual, empresas e centros de investigação muitas vezes apoiados por consultoras ou entidades de incubação que permitam impulsionar o desenvolvimento e marketing de produto alicerçado em estudos de mercado e na criação dos melhores modelos de negócio.

 

Na Multisector trabalhamos regularmente em Transferência de Tecnologia com empresas, centros de investigação e ensino superior, não imagina a quantidade de oportunidades que se criam desde a primeira conversa. Contacte-me!

 

JOÃO C. SOARES
Estratégia & Desenvolvimento
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